A tomada do poder pelos bolcheviques inaugurou uma revolução socialista? Uma investigação marxiana – Paresh Chattopadhyay

Chattopadhyay utiliza as categorias das teorias de Marx à Revolução Russa de 1917 para examinar seu conteúdo suposto socialista.

Aos olhos da esmagadora maioria da esquerda – certamente no Sul da Ásia – a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia em 1917 assinalou a vitória da revolução socialista, ou ao menos deu início à revolução socialista naquele país. Aqueles que aceitam essa posição a mantém mais ou menos axiomaticamente. O presente ensaio é uma tentativa de examinar essa posição indo de volta ao significado da revolução socialista no sentido original de Marx. Todos as principais categorias teóricas usadas nas linhas a seguir são marxianas. Nós dizemos “marxianas” e não “marxistas” de modo a estabelecer que nós estamos usando as categorias como elas aparecem nos próprios textos de Marx e não como são interpretadas por pessoas que alegam ser seus seguidores.

Nós não somos historiadores, e o artigo naturalmente de modo algum alega ser uma contribuição à história. Nosso ensaio é propriamente uma análise (crítica), de um ponto de vista marxiano, baseada em eventos que já são certamente bem conhecidos[1].

I

Como todos sabemos, a Rússia, por volta da época em que os bolcheviques tomaram o poder, era um país (capitalista) atrasado. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, de acordo com uma autoridade, “depois de três décadas de rápida industrialização, a população urbana ainda contava com menos de um quinto do total, e os trabalhadores em mineração e manufatura (excluindo o setor artesanal) menos de 2 por cento. Cerca de 80 por cento da população ainda tirava sua sobrevivência da agricultura”[2]. Dada essa situação na Rússia, parece haver um quase consenso partilhado por marxistas e não marxistas, de que o que é geralmente conhecido como “Revolução de Outubro” – supostamente proletária – era contrária à discussão marxiana de que uma revolução proletária poderia ter lugar apenas em países capitalistas avançados. Essa ideia pode ser resumida na declaração lacônica do jovem Antônio Gramsci: “a revolução dos bolcheviques é uma revolução contra o Capital de Karl Marx”[3].

Abstraindo por enquanto a questão do caráter do evento de Outubro na Rússia, a posição teórica geral subjacente à visão acima é, nós assumimos, uma simplificação exagerada – beirando uma leitura superficial da posição marxiana[4]. Para começar, na perspectiva de Marx da revolução futura, não é a revolução proletária ou – o que é equivalente nesse caso – a revolução socialista (comunista) eclodindo num país capitalista avançado a única que pode ser aceita. Nessa perspectiva também pode haver, fora desse assim chamado caso “clássico”, uma situação ocorrendo numa sociedade relativamente atrasada onde, diferente do que aconteceu em revoluções precedentes, o proletariado teria um papel ativo (incluindo o de liderança). Tal situação poderia surgir em dois tipos de circunstâncias. Primeiro, essa poderia ser uma revolução não proletária que iria diretamente interessar ao proletariado. Secundariamente, essa poderia ser uma revolução proletária sem ser uma revolução socialista (comunista).

No que se refere ao primeiro caso, o Manifesto Comunista (seção IV) especificamente discute o papel dos comunistas na vindoura “revolução burguesa” na (atrasada) Alemanha. Mais uma vez, na “abordagem” de Marx da “revolução permanente” desenvolvida dois anos depois, a perspectiva imediata para o proletariado alemão ainda é mantida como a complementação da revolução burguesa apenas para ser seguida pela revolução proletária. Similarmente, no prefácio à edição russa do Manifesto Comunista – assinada em conjunto por Marx e Engels um ano antes da morte do primeiro – nós lemos sobre a possibilidade de uma (não proletária) “revolução russa dando o sinal para a revolução proletária no Ocidente” e levando a uma “forma comunista de propriedade coletiva” mediada pela forma existente de propriedade comunal da terra.

Em relação ao segundo caso, Marx prevê, no que se refere à Alemanha atrasada, uma “revolução proletária apoiada por uma segunda edição das guerras camponesas”[5]. Da mesma forma, Marx, em sua polêmica com Bakunin, cerca de duas décadas depois, fala na possibilidade do proletariado chegar ao poder nos “estados da Europa continental” (ou seja, fora a Inglaterra – nota do autor) onde a massa dos camponeses forma uma maioria mais ou menos importante da população” e onde (naturalmente) o proletariado tem que “ganhar o campesinato para a revolução”[6].

Assim, uma revolução proletária começando num país capitalista atrasado não está certamente, em princípio, fora do quadro marxiano.

Numa passagem famosa, que esteve sujeita a numerosas más interpretações e abusos, Marx escreve: “nenhuma formação social jamais desaparece antes que todas as forças produtivas, para as quais ela tem espaço suficiente, tenham se desenvolvido”[7]. É desnecessário dizer que, em um país capitalista atrasado, estão longe de terem se desenvolvido em sua completude. Mas Marx fala da revolução acontecendo em um país desse tipo tendo lugar sob a liderança do proletariado, como vimos acima. Essas duas posições podem ser reconciliadas? Nesse caso, em uma situação de atraso, a tarefa imediata do proletariado, liderando a revolução, não é efetuar uma transição ao socialismo, eliminando o capitalismo (parcialmente existente). Sua tarefa imediata é destruir as relações pré-capitalistas, ou seja, completar as tarefas “históricas” da revolução burguesa. No caso “clássico”, isso seria uma tarefa da própria burguesia. Mas, em uma situação em que a burguesia é fraca, e não mais revolucionária, em relação às classes dominantes pré-burguesas, é o proletariado, em aliança com os demais produtores imediatos, que deve completar a tarefa. No processo de completar as tarefas da revolução burguesa, o proletariado, ao mesmo tempo, cria (conscientemente) “as condições materiais de existência de relações de produção superiores”, para usar as palavras da mesma passagem citada acima. Aqui uma revolução proletária não é diretamente (ainda) uma revolução socialista no sentido de que suas tarefas ainda não são – ao menos não diretamente – preparar a transição para a sociedade do trabalho livre associado. Tentar isto sem criar as suas “condições materiais de existência” seria simplesmente “quixotesco”[8]. Afinal de contas, uma sociedade não pode passar por cima das fases naturais (naturgemasse – em alemão no original – N. do T.) de seu desenvolvimento, seja por saltos ou por decreto”[9].

Dado que, de qualquer modo, a principal preocupação de Marx é com a “lei (econômica) do movimento” da sociedade capitalista (seu nascimento, crescimento, decadência e morte), a revolução que ocupou a maior parte de sua atenção é a revolução contra o capital por seus “coveiros”, ou seja, a revolução socialista ou comunista (elas são equivalentes em Marx). Aqui a revolução proletária – pressupondo a completude das tarefas históricas da revolução burguesa – é o mesmo que revolução socialista.

Sejamos claros a respeito da concepção marxiana de “revolução”. Por revolução (social) Marx quer dizer, como ele já tinha enfatizado em sua polêmica com Ruge (1844), a “dissolução das velhas relações” da sociedade[10] ou igualmente, como ele disse quinze anos mais tarde, uma “mudança” nas “bases econômicas” da sociedade constituídas pelas “relações de produção”[11]. Uma consequência imediata dessa concepção é que a revolução social não é um evento momentâneo que coincida com a assim chamada “tomada do poder”[12]. Ela é epocal. Particularmente para o proletariado, a “época da revolução social começa” – uma frase famosa do ‘prefácio’ de Marx de 1859 (referido anteriormente) – com o estabelecimento de seu poder político (através da destruição do aparato do Estado burguês), sendo este apenas o “primeiro passo na revolução operária”, como o Manifesto Comunista declarou. As velhas relações de produção não desaparecem e as novas relações não se levantam no dia seguinte da tomada do poder pelos proletários e do estabelecimento de uma “propriedade pública” ordenada dos meios de produção, na medida em que a classe operária deve realizá-la “através de longas lutas, através de uma série de processos históricos que transformam as circunstâncias e os homens” – como Marx enfatizou se referindo à primeira ditadura proletária na história[13] – em resumo, através de todo um “período de transformação revolucionária” ao qual corresponde o poder proletário[14]. Portanto, “a época de revolução social” para a classe operária compreende todo um período – o período de “prolongadas dores do parto”, na celebrada metáfora de 1875 – da instalação do poder político proletário até o advento da nova sociedade, a “primeira fase do comunismo”. O processo inteiro é baseado, é claro – na moldura conceitual marxiana – no postulado central consagrado no trabalho da vida inteira de Marx, nomeadamente, de que a emancipação da classe operária é uma tarefa dos próprios operários. A revolução proletária é de fato resumida no que Marx chamou (em 1850) o canto de batalha da classe operária: “a revolução permanente”.

Como um materialista consistente, isto é bem conhecido, Marx não deixou nenhum projeto para a futura sociedade. Da mesma forma, não deveria ser necessário dizer, não há nenhum “modelo” de uma revolução socialista nos escritos de Marx – o “modelo alemão” como Lênin diria em sua polêmica com os mencheviques. Pode haver, de fato, inúmeros tipos de situações históricas com correlações correspondentes de forças sociais nas quais uma revolução socialista poderia eclodir e prosseguir (o próprio Marx aprendeu bastante sobre a revolução proletária dos operários parisienses em 1871). Mas o que permanece invariante, em meio a todas essas permutações e combinações, é que a revolução deve envolver uma transformação radical nas relações de produção e deve ser um ato autoemancipatório dos produtores imediatos, começando com o estabelecimento de seu poder absoluto como classe (ou seja, não por um indivíduo ou um grupo em seu nome e fora de seu controle direto). De outro modo, não estaremos falando de uma revolução socialista em um quadro de referência marxiano.

Uma transformação radical nas relações de produção significaria, nessa conexão, (re)unir – num nível mais alto – os produtores com suas condições de produção – em termos reais e não juridicamente formais, é claro – para fora da separação (oposição) entre as duas característica do capitalismo. Isso significaria uma completa inversão do princípio sob o capitalismo: “os meios de produção empregam o trabalhador, os trabalhadores não empregam os meios de produção”, na impressionante paráfrase de Ricardo por Marx[15].

II – 1

É pela primeira vez em abril de 1917, em sua chegada a Petrogrado, que Lênin convocou uma revolução socialista na Rússia[16]. Ele sabia perfeitamente bem que no esquema marxiano a revolução socialista deveria seguir a revolução democrático-burguesa. De fato, ele mesmo havia, em 1905, claramente distinguido entre essas duas fases da revolução russa. Seguindo Lênin, os bolcheviques tinham até o momento argumentado que a revolução socialista na Rússia, começando com a ditadura proletária, iria ser inaugurada depois que as tarefas da revolução democrático-burguesa fossem, ao menos no principal, completadas sob a ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato, dada a incapacidade da burguesia russa de completar sua “missão histórica”. Quando, no entanto, Lênin convocou uma revolução socialista na Rússia a revolução democrático-burguesa estava bem longe de ser completada no país. Em apoio ao seu chamado, Lênin apresentou o surpreendente argumento de que na Rússia “o poder de Estado tinha passado para as mãos de uma nova classe, nomeadamente a burguesia, e que os senhores de terra se tornaram burgueses. Nesta medida a revolução democrática tinha sido completada na Rússia”[17].

Nós sugeriríamos, por outro lado, que na extensão em que Lênin atribuía a completude (mesmo parcial) da revolução democrático burguesa simplesmente à passagem da burguesia russa ao poder político, Lênin estava revisando o conceito de revolução social, na medida em que uma revolução social em Marx, como vimos acima, significa nada menos que uma transformação das relações sociais de produção e não simplesmente uma mudança na “superestrutura” política, para usar a linguagem de Marx em 1859.

A defesa de Lênin de sua posição contra seus oponentes é, para dizer o mínimo, ambígua. Pois um ano antes de sua morte ele escreveu contra N. Sukhanov que, contrário a um “modelo” pré-estabelecido de sequência revolucionária, um povo “defrontado com uma situação revolucionária” pode ter que “se atirar” nela antes de criar as condições para o “socialismo”[18]. Tomada como uma proposição geral isso é inatacável. Mas por que e em que sentido a referida revolução tem que ser precisamente uma revolução socialista em uma sociedade semi-feudal com o proletariado constituindo uma pequena minoria da população total? Por que essa não pode ser uma revolução democrático-burguesa sob a liderança do proletariado – em aliança com o restante dos explorados – indo completar as assim chamadas “tarefas históricas” da burguesia de modo a avançar ininterruptamente para uma revolução socialista? De fato esta última posição foi defendida contra Lênin pelo muito difamado bolchevique Kamenev em abril de 1917. Kamenev e seus partidários foram além. Na medida em que o chamado de Lênin a uma “revolução socialista”, abandonando a teoria, significava na prática uma luta impiedosa contra todas as correntes socialistas não-bolcheviques na Rússia (que não aceitassem o ponto de vista de Lênin), levando ao poder político exclusivo dos bolcheviques, Kamenev e seus partidários, que queriam um “partido de massas proletárias revolucionárias”, advertiram contra o perigo da tomada do poder por um “pequeno grupo de propagandistas comunistas” incapazes de manter o poder exceto através do terror[19].

O levantamento espontâneo dos Conselhos (Soviets) – a princípio de representantes de operários e soldados – na Rússia em fevereiro de 1917, surpreendeu todos os partidos políticos existentes no país, como tinha feito doze anos antes. Os operários foram bem além da sua assim chamada “consciência sindical” e por si mesmos adquiriram completa consciência política de classe – independentemente dos partidos. De certa forma, o fenômeno dos Conselhos largamente invalidou a tese de Lênin de 1902 de que por si mesmos os operários podem apenas adquirir “consciência sindical” e que a consciência revolucionária tem que ser trazida de fora por uma elite intelectual revolucionária. Por outro lado, o fenômeno dos Conselhos corroborava completamente o que os jovens Marx e Engels tinham escrito: “a consciência da necessidade de uma revolução” iria surgir da (própria) classe (operária)[20], ou o que a grande contemporânea de Lênin disse em 1906 “revoluções não permitem nenhum mestre escola”[21]. A grande Comuna de Paris tinha mostrado a mesma tendência em 1871, da mesma forma que os magníficos operários espanhóis iriam demonstrar na sua luta contra o fascismo nos anos 1930, apenas para serem vergonhosamente esmagados pelos “internacionalistas” de Stalin.

Despreparados e surpreendidos pelo levantamento dos Conselhos, os diferentes partidos socialistas crescentemente tentaram controlá-los adquirindo a maioria neles. No primeiro Congresso Pan-Russo dos Conselhos de representantes de Operários e Soldados em junho, os bolcheviques constituíam apenas um sétimo dos delegados. Entretanto, apesar de alguns retrocessos em julho e agosto, os bolcheviques crescentemente ganharam influência nos Conselhos e no começo do outono eles fizeram grandes progressos, ganhando clara maioria em Petrogrado, Moscou e outros grandes centros industriais. Porém, nas vastas regiões rurais (entre o campesinato), ou seja, entre a imensa maioria da população trabalhadora do país, são os Socialistas Revolucionários que mantêm uma maioria marcante (em outubro os Socialistas Revolucionários racham e a minoria do partido saiu e formou um partido independente, os assim chamados Socialistas Revolucionários de Esquerda, que frequentemente ajudaram os bolcheviques a obter a maioria em diferentes Conselhos). Os mencheviques tinham maioria apenas em um punhado de regiões. Os anarquistas e os chamados “Maximalistas” também não ganharam pouco, apoiaram os bolcheviques muito frequentemente e contribuíram consideravelmente para a crescente radicalização das massas. Essa era a situação em outubro.

Apesar de que “todo poder aos Conselhos (Soviets)” fosse a grande palavra de ordem propagada por Lênin e seu partido, Lênin de fato queria que o “poder” estivesse exclusivamente  nas mãos de seu partido. Isso é visto claramente, por exemplo, quando no primeiro Congresso dos Conselhos de Representantes de Operários e Soldados, em que os bolcheviques constituíam uma pequena minoria, Lênin declarou que seu partido estava pronto para assumir o poder (Essa declaração, ademais, foi feita pelo “centralista democrático” sem consultar ninguém no partido). Isso é visto mais uma vez quando, em setembro, com a força da maioria de seu partido apenas nos Conselhos de Petrogrado e Moscou, Lênin insistiu que “os bolcheviques podem e devem tomar o poder do Estado em suas próprias mãos (v svoi ruki – em russo no original – N. do T.)” e que “seria ingênuo esperar por uma maioria ‘formal’ dos bolcheviques”[22] (presumivelmente no país como um todo). Lênin escancarou sua obsessão pelo poder exclusivo para seu partido quando ele veementemente denunciou “uma tendência no comitê central do partido” que desaprovava que o partido “tomasse o poder imediatamente” e queria “esperar pelo Congresso dos Conselhos”. “Esperar pelo Congresso dos Conselhos”, ele declarou, “é uma idiotice porque o congresso não dará nada e não pode dar nada… Primeiro derrotar Kerensky, então convocar o Congresso”[23].

No evento os bolcheviques com seus aliados, os Socialistas Revolucionários de Esquerda, obtiveram a maioria no segundo Congresso dos Conselhos, acontecido em 25 e 26 de outubro (7 e 8 de novembro no novo calendário). Alguém deveria observar que um grande número de Conselhos no país, incluindo muitos do exército – que se opunham à realização do Congresso antes que a Assembleia Constituinte tivesse se reunido – não enviaram delegados ao Congresso. Mesmo assim, mesmo que os bolcheviques e seus aliados obtivessem uma clara maioria no Congresso, Lênin, inseguro do resultado do processo democrático normal, queria evitar todas as incertezas sobre a dominação do seu partido e insistiu na tomada do poder por um levantamento armado antes que o Congresso pudesse se reunir. “Seria ruinoso ou mera formalidade esperar pelo voto flutuante de 25 de outubro. O povo tem o direito e o dever de resolver essas questões não pelo voto, mas pela força”, ele escreveu ao comitê central[24] (presumivelmente foi Lênin quem decidiu esse “direito” e esse “dever” pelo povo).

Assim, o Congresso dos Conselhos, ao se reunir, foi colocado diante da tomada do poder (por insurreição) como um fait accompli (fato consumado – N. do T.). Não apenas isso. O Governo Provisório foi dissolvido não pelo Congresso dos Conselhos, nem mesmo pelo Conselho de Petrogrado, mas pelo chamado “Comitê Militar Revolucionário” do Conselho de Petrogrado – completamente dominado pelos bolcheviques – por um decreto redigido pelo próprio Lênin. Essa operação singular, escreve um atento historiador francês “privou o Congresso dos Conselhos e o Conselho de Petrogrado de todo direito de paternidade no que se refere à fundação da nova ordem e de fato os privou de qualquer reivindicação de legitimidade”[25]. No dia posterior ao fechamento do Congresso o jornal Novaya zhizn (Vida Nova), de Máximo Gorky, escreveu: “O Congresso dos Conselhos foi privado de toda possibilidade de decidir livremente a questão do momento, de que por conspiração militar, no momento em que ele se reuniu, a tomada do poder foi colocada diante dele como um fait accompli (fato consumado – N. do T.). A criação do novo poder (a República dos Soviets) e seu programa político foi também similarmente fixado de antemão. Os congressistas se viram com a proposta de, por pura formalidade, adotar sem debate as mesmas teses proclamadas em uma declaração solene ao povo. Foi assim que o parlamento da ‘democracia revolucionária’ foi transformado em uma máquina para estampar automaticamente o selo de aprovação sobre todas as diretivas do comitê central bolchevique”[26]. Ao se dirigir ao Congresso dos Conselhos, Leon Trotsky declarou: “Eles nos dizem: vocês não esperaram o Congresso com sua insurreição… nós como partido consideramos isso nossa tarefa, fazer genuinamente possível que o Congresso dos Conselhos tomasse o poder… de modo a realizar essa tarefa era necessário um partido que arrancasse o poder das mãos da contrarrevolução e dissesse a vocês: ‘aqui está o poder e vocês têm que tomá-lo’”[27].

O ato final de consolidação do caminho dos bolcheviques ao poder era a “solução final” do problema da Assembleia Constituinte. A Assembleia Constituinte era a suprema aspiração de todos as tendências liberais (burguesas) e socialistas na Rússia desde o começo do movimento revolucionário. Simultaneamente o símbolo e o ponto de aglutinação de décadas de luta contra a autocracia, a Assembleia de fato se tornou uma demanda revolucionária da população trabalhadora do país, incluindo as vastas massas camponesas. Os bolcheviques estavam entre os mais vociferantes defensores da realização da Assembleia e insistiam que apenas eles iriam assegurar sua convocação e prevenir que o Governo Provisório frustrasse esse grande evento na história russa. Enquanto anunciavam a vitória (a tomada do poder) em outubro o quase bolchevique “Comitê Militar Revolucionário” prometeu convocar a Assembleia sem atraso. No dia seguinte, Lênin, apresentando ao Congresso dos Conselhos o decreto sobre a paz, falou em “submeter todas as propostas de paz à decisão da Assembleia Constituinte”[28], e apresentando o decreto sobre a terra (adotando literalmente o que havia sido redigido pelos Socialistas Revolucionários) como “expressando a vontade absoluta da vasta maioria dos camponeses conscientes de toda Rússia” e que em seu preâmbulo declarava que “o problema da terra em toda sua extensão só pode ser resolvido pela Assembleia Constituinte”. Lênin foi longe o bastante para dizer que “mesmo que os camponeses deem ao partido Socialista Revolucionário a maioria, nós ainda diremos: que seja… Nós devemos deixar toda liberdade criativa às massas do povo”[29].

Nas eleições que tiveram lugar cerca de três semanas depois da tomada do poder – as eleições mais livres da história da Rússia[30], os bolcheviques receberam menos de um quarto do total de votos. Já apreensivo de que o resultado de uma eleição livre de escala nacional não estaria a favor dos bolcheviques – “é sem sentido (para o partido) esperar a Assembleia Constituinte, que evidentemente não estará conosco”, ele tinha argumentado numa reunião duas semanas antes da tomada do poder[31] – Lênin agora saiu abertamente contra a Assembleia Constituinte, contradizendo sua própria posição expressa apenas alguns dias antes. “Quando a esmagadora maioria do povo ainda não pôde conhecer toda a extensão e significado da revolução proletária e camponesa de outubro”, ele escreveu, “toda tentativa de considerar a questão da Assembleia Constituinte de um ponto de vista formal ou legal… seria uma traição da causa proletária e uma mudança para o ponto de vista burguês”[32].

Quando a assembleia se reuniu em 8 de janeiro de 1918, os bolcheviques a apresentaram com uma “Declaração dos Direitos dos Povos Trabalhadores e Explorados” – redigida por Lênin – que incorporava a legislação do Segundo Congresso dos Conselhos sobre a paz, terra e controle operário da indústria. Inatacável em si mesma, a “Declaração”, entretanto, queria que a Assembleia “considerasse que seria basicamente errado, mesmo formalmente, se opor ao poder dos Conselhos e portanto considerar que, apoiando o poder dos Conselhos e os decretos do Conselho dos Comissários do Povo, sua tarefa é limitada a estabelecer os fundamentos de uma reorganização socialista da sociedade”[33]. Isso claramente resultaria em um ato de abdicação do poder pela Assembleia Constituinte ditado pelos bolcheviques em nome dos Conselhos. Por uma votação de 237 a 140, a Assembleia a rejeitou[34]. Desnecessário dizer, esse ato da Assembleia selou seu destino e ela foi dissolvida pelos guardas vermelhos na manhã seguinte.

Seria natural que os oponentes dos bolcheviques aproveitassem a dissolução da Assembleia Constituinte como um exemplo, entre outros, do caráter “anti-democrático” do novo regime. Como é bem conhecido K. Kautsky foi um dos mais vociferantes entre esses oponentes. Em sua celebrada resposta a Kautsky, Lênin justificou a dissolução da Assembleia na alegação (principalmente) de que a ditadura do proletariado era superior à democracia burguesa e a República dos Soviets era superior à república burguesa. Ele fez isso sustentando axiomaticamente uma série de igualdades: poder bolchevique = poder dos Soviets = poder do tipo da Comuna de Paris = ditadura do proletariado (correspondentemente, o poder que os bolcheviques suspenderam supostamente seria democrático burguês). Essa cadeia de raciocínio, entretanto, obscurece completamente e mistifica o processo real da tomada do poder pelos bolcheviques e a maneira como esse poder buscou se manter.

Entretanto, a oposição à ação dos bolcheviques não emanava apenas dos “renegados”. A grande contemporânea de Lênin, Rosa Luxemburgo, com suas credenciais revolucionárias impecáveis e muita simpatia pela posição revolucionária dos bolcheviques, em relação aos reformistas da Segunda Internacional, também agudamente criticou a ação bolchevique. Muito interessantemente, ela encontrou uma curiosa convergência na abordagem bolchevique e kautskyana da questão da democracia e ditadura, a qual ela pensava ser oposta à abordagem de Marx. “O erro fundamental da teoria de Lênin e Trotsky”, ela escreveu, “é que eles, como Kautsky, opõem ditadura à democracia. A formulação da questão para os bolcheviques, assim como para Kautsky é ‘ditadura’ ou ‘democracia’? O último (Kautsky) naturalmente opta por democracia, de fato pela democracia burguesa, porque ela constitui a alternativa à revolução socialista. Lênin-Trotsky optam pelo contrário, pela ditadura em oposição à democracia e portanto pela ditadura de um punhado de pessoas, ou seja, pela democracia segundo o modelo burguês”[35].

II – 2

No alvorecer da tomada do poder Lênin alegou que os “Soviets estão seguindo o mesmo caminho da Comuna de Paris”[36]. Que a “República dos Soviets é a continuação da Comuna de Paris”[37]. Mas em que medida essas palavras correspondem à realidade?

Agora quando Lênin fala de “Poder dos Soviets” como “nada mais que a forma organizacional da ditadura do proletariado” ele não tinha nenhuma confusão em mente quanto à realidade desse poder na medida em que ele já tinha de qualquer modo igualado o “poder proletário” com o “poder bolchevique”[38]. Assim, seis meses após a tomada do poder, Lênin escreveu “nós, o partido dos bolcheviques conquistamos (otvoevali – em russo no original – N. do T.) a Rússia dos ricos para os pobres, dos exploradores para o povo trabalhador. Nós precisamos agora governar a Rússia… Nós precisamos agora consolidar o que nós mesmos decretamos, legislamos, discutimos, traçamos”[39] e isso é o “Poder dos Soviets” – conquistado, mantido e exercido não pelo povo trabalhador ele mesmo mas pelos bolcheviques em seu nome, o que Lênin axiomaticamente iguala com a ditadura proletária. Na medida em que “até agora nós não atingimos um estágio em que as massas trabalhadoras pudessem participar do governo, os Conselhos, na verdade são órgãos de governo para as massas trabalhadoras pela seção avançada do proletariado (leia-se o partido – Nota do autor) e não pelas massas trabalhadoras”, Lênin disse ao oitavo Congresso do Partido[40]. “Naturalmente, nenhuma questão política ou organizacional é resolvida por nenhuma instituição estatal em nossa república sem a orientações do comitê central do partido”. Escrevendo contra “a ideia puramente liberal da marcha da revolução” Trotsky, por sua vez, observou que “a dominação revolucionária do proletariado supõe a dominação do partido no próprio proletariado… a substituição do poder do partido pelo poder da classe operária não é, fundamentalmente, substituição nenhuma”. Nenhuma dúvida de que “a direção geral dos assuntos está concentrada nas mãos do partido… a última palavra pertence ao comitê central do partido”[41]. Quão diferente é o relato de Marx da prática dos operários parisienses ao constituírem a Comuna de 1871, a primeira ditadura do proletariado! “Operários governam a Comuna de Paris”, Marx escreveu, “eles conseguiram” não apenas “tomar a iniciativa da presente revolução” mas “eles conseguiram” também “tomar a direção da sua revolução em suas próprias mãos”[42].

Antes de ir adiante, permita-se que notemos outro órgão de auto-governo que surgiu em 1917 ao lado dos Conselhos, nomeadamente, os comitês de fábrica. Ao contrário dos Conselhos, que representavam os operários, soldados e por último os camponeses, os comitês de fábrica representavam os operários industriais apenas. Enquanto os Conselhos no curso de sua crescente institucionalização estavam, pouco a pouco, perdendo o contato direto com as massas na base, os comitês de fábrica estavam em contato diário com os operários no chão de fábrica e nessa medida esses comitês refletiam diretamente a têmpera em mutação e as aspirações revolucionárias crescentes das massas trabalhadoras. Já por volta de abril de 1917, o Governo Provisório foi obrigado a reconhecer esses comitês como representantes dos trabalhadores em face da gestão das empresas nas questões de salários, horas e condições de trabalho em geral, assim como em reivindicar vários serviços sociais e estatais para os operários. Os bolcheviques encontrarem neles um instrumento ideal de propaganda e, na verdade, eles se tornaram uma fortaleza bolchevique bem rapidamente. Como campeões do “controle operário”, os bolcheviques rapidamente ganharam maioria nesses comitês. Em outubro, esses comitês tinham sido bem sucedidos em empurrar os sindicatos para os bastidores e, independentemente de qualquer lei, eles estavam intervindo diretamente não somente nas questões do dia a dia da produção mas também naquelas da gestão dos empreendimentos, frequentemente colocando as fábricas sob posse coletiva dos operários depois de expulsar seus proprietários legais. Entretanto, depois da tomada do poder pelos bolcheviques, o modo como os comitês de fábrica continuaram a funcionar como órgãos de autogestão pelos operários crescentemente se chocou com a tendência centralizadora inerente ao poder bolchevique. Dentro de um curto período, os sindicatos, nesse momento já dominados pelo partido governante, foram bem sucedidos em anexá-los e transformá-los em seus próprios órgãos no nível mais baixo, dessa forma encerrando a soberania direta desses comitês[43]. Da sua parte, Lênin agora descobria que “o operário russo é um trabalhador ruim em comparação com os países avançados”[44]. Dessa forma, ao invés de administrar coletivamente as questões dos locais de trabalho, através de seus próprios órgãos eleitos – uma prática antes defendida pelos bolcheviques mas agora denunciada como “espontaneidade pequeno burguesa”[45] – as massas deviam “inquestionavelmente obedecer a vontade única dos líderes do processo de trabalho”[46], e deviam aceitar a “subordinação inquestionável durante o trabalho às decisões de um-homem-só dos diretores dos Conselhos, dos ditadores (diktatorov – em russo no original – N. do T.), eleitos ou apontados pelas instituições dos Conselhos, investidos em poderes ditatoriais (diktatorskimi polnomochyami – em russo no original – N. do T.)”. Ao mesmo tempo, Lênin sublinhou que “particular significância agora aderia às medidas para elevar a disciplina no trabalho e produtividade do trabalho por medidas burguesas típicas como a introdução do sistema de Taylor e de trabalho por peça”[47].

Em outro nível, uma consequência lógica de igualar a ditadura proletária com o poder bolchevique foi não apenas a eliminação dos partidos políticos burgueses e monarquistas, mas também a supressão de dois (outros) partidos socialistas, os Socialistas Revolucionários (primeiro a “direita” e por último a esquerda) e os mencheviques. A oposição à tomada do poder pelos bolcheviques instantaneamente fez dos Socialistas Revolucionários de “direita” e mencheviques “contrarrevolucionários”. Entretanto, se por contrarrevolução se quer dizer a restauração do antigo regime na Rússia, então eles certamente não eram contrarrevolucionários. Como uma célebre autoridade tinha observado, “o contrário era o caso: cada um desses partidos jogou fora as oportunidades que tinha tido de desencadear uma oposição efetiva ao poder dos comunistas por medo de que isso poderia ser útil nas mãos do lado reacionário na Guerra Civil”, e o historiador adiciona que foi provavelmente por isso que “enquanto a Guerra Civil grassava, os comunistas, apesar de constantemente assediar os dois partidos com prisões e repressão administrativa, de qualquer forma permitiam sua existência contínua”[48]. O fim da Guerra Civil e o começo da Nova Política Econômica (NEP) praticamente decretou o fim da atividade política visível desses dois partidos. Suas atividades livres foram massivamente suprimidas, é claro, muito mais cedo, imediatamente depois da tomada do poder pelo primeiríssimo decreto do recém estabelecido Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkom – em russo no original – N. do T.), o “decreto sobre a imprensa”, o qual – contrariando o antigo programa do partido bolchevique garantindo liberdade de imprensa – instituiu a censura e proibiu a publicação de jornais e periódicos que questionassem o novo regime[49]. Também deve ser mencionado que os anarquistas, aliados próximos dos bolcheviques na subida ao poder, foram, por sua vez, também severamente perseguidos no período após a tomada do poder. Finalmente, a liderança bolchevique, não satisfeita com a supressão dos demais partidos, quis prender os “desviantes anarquistas e sindicalistas dentro do partido”, que eram “uma completa ruptura com o marxismo e o comunismo”[50] – como interpretados, desnecessário dizer, por Lênin – e proibiu, a partir de 1921, a existência de grupos com plataformas separadas dentro do partido.

III

Em seus diferentes escritos, antes da tomada do poder, Lênin, seguindo de perto a análise da Comuna de Paris por Marx e Engels, tinha particularmente declarado, como característica da ditadura proletária, a destruição da antiga máquina do Estado, com sua polícia, exército permanente e burocracia e sua substituição, sob nova apresentação, não por outro tipo de aparato de estado autonomizado, mas por oficiais livremente eleitos e revogáveis em todos os níveis, ganhando salário de operário, e os operários universalmente armados, e tinha acusado “os Plekhanovs e os Kautskys” de terem “esquecido e pervertido” a “essência da Comuna de Paris” (e nós vimos acima que o novo regime era do tipo da Comuna de Paris). Entretanto, novamente aqui, a realidade contradisse suas palavras. Ele mesmo teve que admitir, pouco antes de sua morte, que “nós efetivamente nos apossamos do velho aparato de Estado do Czar e da burguesia… inteiramente”[51]. De fato, a máquina burocrática organicamente ligada com os novos estabelecimentos centrais, desenvolveu-se a passos gigantescos, particularmente na ausência de qualquer oposição política verdadeira. Alexandra Kollontai, por isso digna de muita glória, observou perceptivamente em 1921 que “nós temos medo da atividade autônoma das massas. Nós temos medo de deixar um domínio livre ao seu espírito criativo. Nós tememos a crítica. Nós deixamos de ter confiança nas massas. É por causa do nosso burocratismo que a iniciativa (do povo) está enfraquecendo, (sua) vontade de agir desaparecendo… Dessa forma uma divisão extremamente danosa está aparecendo: ‘nós’ – quer dizer, os operários – e ‘eles’ – os funcionários dos Conselhos de quem tudo depende. O mal não tem outra origem”[52]. No mesmo ano, depois da proibição da existência de diferentes plataformas no interior do partido bolchevique, outro bolchevique, G. Miasnikov, um operário fundador do Grupo dos Operários (inteiramente proletário em sua composição) escreveu ao comitê central do partido: “agora que nós esmagamos a resistência dos exploradores e que nós nos constituímos no único poder do país nós devemos proclamar a liberdade de expressão e de imprensa (para todos) dos monarquistas aos anarquistas – uma liberdade tal que ninguém nunca experimentou no mundo”[53].

De acordo com a declaração frequentemente repetida de Lênin antes da tomada do poder, uma das condições vitais da “transformação da democracia burguesa em democracia proletária é a abolição do exército permanente e sua substituição pelos operários armados”, e ele tinha precisamente acusado os “socialistas revolucionários e os mencheviques” por não “terem realizado essa demanda depois da revolução de fevereiro”. Entretanto, depois da tomada do poder, não apenas um exército permanente – apesar de que “vermelho” – foi criado, mas mesmo a promessa anterior – feita horas depois da tomada do poder – de “completa democracia no interior do exército” foi completamente violada. De outro lado, os operários inicialmente armados por si mesmos – os “guardas vermelhos” – foram completamente desarmados, em muitos casos simplesmente integrados ao exército permanente.

Um desenvolvimento similar pôde ser visto na ascensão e consolidação de um aparato policial especial, separado das massas trabalhadoras, do qual o núcleo, a temida polícia de segurança – Vecheka ou Cheka – estabelecida cinco semanas depois da tomada do poder, rapidamente cresceu para mais de um quarto de milhão em meados de 1921[54].

Assim, o Estado, estabelecido através da tomada do poder em Outubro, com sua própria burocracia, exército permanente e polícia, de certa forma uma série sempre crescente, sem tendência a convergir para um limite, desmentiu completamente a repetida afirmação de Lênin de que o Estado era do tipo da Comuna de Paris, um Estado-Comuna. Como um historiador estadunidense observou, “privado do poder nos Conselhos e nas fábricas o proletariado russo… descobriu que o triunfo da ditadura em seu nome foi uma vitória bastante vazia”[55].

Lênin (e outros bolcheviques) sempre declararam que a tomada do poder em Outubro tinha inaugurado a revolução socialista na Rússia e que o Estado derivado desse ato era a corporificação da ditadura do proletariado. Essa asserção se tornou meio que uma verdade auto-evidente para a imensa maioria da esquerda (“revolucionária”). Entretanto, de um ponto de vista materialista e parafraseando as palavras do “Prefácio” de Marx de 1859 referido anteriormente – não podemos julgar o poder bolchevique pelo que ele pensa de si mesmo “por sua própria consciência” (por ele mesmo), nós temos que olhá-lo objetivamente, com base nas “contradições da vida material”. Desse ponto de vista a afirmação de Lênin pode ser chamada simplesmente de ideológica. Ou seja, um caso de “falsa consciência” no sentido marxiano original do termo.

De fato, é fácil ver que, julgando pela maneira como o poder foi tomado ou como ele foi mantido e deixado em seu desenvolvimento, alguém dificilmente alegaria que Outubro assinalou o início da “emancipação da classe operária pelos próprios operários”.

Conduzidas pela posição leninista de que a revolução socialista iria eclodir nos “elos mais fracos” da cadeia do desenvolvimento desigual do mundo capitalista, as pessoas na esquerda, em sua grande maioria, não apenas aceitaram acriticamente o caráter da tomada do poder em Outubro como “socialista”, mas também explicaram ou antes justificaram as medidas tomadas pelo novo regime no quadro do atraso da Rússia e seu ambiente hostil – “não previsto” pelos fundadores do socialismo científico. Agora, indubitavelmente, a reconstrução de uma sociedade socialista num estado de atraso e em um ambiente internacional hostil – particularmente na ausência das muito esperadas revoluções na Europa Ocidental – requeria medidas desesperadas. Mas a questão básica permanece: quem decidia essas medidas e as aplicava? Se não eram os operários como classe mas, em seu nome, uma vanguarda auto-designada e autonomizada (em relação à classe operária), então alguém dificilmente declararia que essas eram medidas desesperadas adotadas pelo “proletariado como classe dominante”, nas palavras do Manifesto Comunista. Indubitavelmente, de novo, a ditadura do proletariado não é uma sociedade livre. Mesmo por fora da necessidade de suprimir as antigas classes exploradoras, que acabaram de ser expulsas do poder político, o regime proletário recém-estabelecido não pode ser marcado pela ausência de todas as restrições. É por isso que “o período de transformação revolucionária” é um período de “prolongadas dores do parto”, na metáfora de Marx de 1875. Mas, de novo, quaisquer restrições e coerções restantes seriam auto-inflingidas, seriam obra dos próprios “coagidos”.

Se o que Lênin dizia sobre os operários russos “atrasados”, incapazes de exercer o poder por si mesmos (como nós vimos antes) fosse verdade, então teríamos que admitir que eles eram também despreparados para o socialismo, ao menos não no sentido marxiano de uma “sociedade de produtores livres associados”, e, consequentemente, a revolução realizada em seu nome não pode ser aceita como uma “revolução socialista”.

De outro lado, se alguém toma a posição de Lênin de 1902 como ponto de partida, nomeadamente, de que o proletariado por si mesmo é incapaz de alcançar a revolução proletária a não ser que seja liderado por um grupo de “revolucionários profissionais”, cuja constituição, programa e prática está completamente fora do controle do proletariado, então teria que admitir que a proposição marxiana básica de que “a emancipação da classe operária é uma obra dos próprios operários” está completamente errada.

Entretanto, afortunadamente, a história – “a maior de todos os marxistas” como Hilferding costumava dizer – não comprovou a posição leninista. Nós admitiríamos que no momento da tomada do poder a vasta maioria dos produtores imediatos na Rússia  – incluindo o campesinato – estava preparada para se livrar das relações pré-capitalistas de produção e certamente do governo provisório, que era inadequado para a tarefa – assim como para obter a paz – mas não pronta para uma revolução socialista – entendida no sentido marxiano original (e não “marxista-leninista”) da expressão – uma revolução que iria ser sua própria criação e não que buscaria ser imposta forçosamente a eles por uma auto-proclamada “vanguarda” hermeticamente desinfectada de qualquer contaminação de fora e alegando conhecer os interesses dos operários melhor do que os próprios operários. Entretanto, há razões para crer que o grande movimento pela auto-emancipação dos produtores imediatos que começou com os Conselhos e comitês de fábrica, se lhe fosse permitido que continuasse desimpedido, iria, depois de completar as tarefas democrático-burguesas, ininterruptamente passar para um novo estágio e inauguraria a revolução para construir uma “sociedade do trabalho livre associado”. Desafortunadamente o movimento não foi deixado para continuar por si mesmo, danificado e por último destruído principalmente pela “vanguarda proletária”.

Revista Econômica – Setembro/Outubro de 1991


[1] Nas linhas seguintes as citações de fontes em língua não inglesa foram traduzidas por nós mesmos para o inglês. Entretanto, para conveniência dos leitores, sempre que possível, nos referimos à sua versão em inglês lado a lado. Nesses casos o primeiro número de página se refere para a versão em língua original, o segundo, à versão em língua inglesa. Esse é particularmente o caso dos textos de Lênin.

[2] G. Grossman – “A Industrialização da Rússia e da União Soviética” em C. M. Cipolla (editor) – A História Econômica da Europa – Fontana Vol. 4 part 2. Glasgow, 1973: p. 493 e também P. Bairoch – “O nível de desenvolvimento econômico de 1910 a 1919” em Annales Novembro/Dezembro de 1965 (em francês), onde o autor conclui que a Rússia era o mais atrasado entre os países importantes do mundo no início do século vinte.

[3] Escritos Políticos (em italiano, Roma, 1973: p. 130).

[4] Para um exemplo eminente ver E. H. Carr – A Revolução Bolchevique, Londres, 1964, Cap. 2, especialmente páginas 43-44.

[5] “Carta a F. Engels” de 6 de abril de 1856 em K. Marx e F. Engels Obras Escolhidas II (em alemão), Berlim, 1964, p. 424. A linha citada aparece em inglês.

[6] “Resumo do livro ‘Estado e Anarquia’ de Bakunin” em Marx-Engels – Obras XVIII (em alemão) Berlim, 1973: p. 630.

[7] Para uma Crítica da Economia Política: Prefácio (em alemão), Berlim, 1958: p. 14; Marx-Engels – Obras Escolhidas (em um volume), Moscou, 1970: p. 182.

[8] Manuscritos de 1857-1858 de Marx, também chamados Grundrisse (em alemão), Berlim 1953: p. 77.

[9] Marx – O Capital – Livro I (em alemão), Berlim, 1962; p. 15-16; O Capital – Livro I, Moscou, 1978: p. 20.

[10] “Glosas Críticas…” em Obras de Marx e Engels (em alemão), Berlim, 1976: p. 409.

[11] Para uma Crítica, op. cit. p. 13.

[12] Conforme as declarações lugares comuns errôneas na esquerda sobre a “vitória da revolução socialista” na Rússia em 1917.

[13] “A Guerra Civil na França” em Marx e Engels – Sobre a Comuna de Paris, Moscou, 1971; p. 76.

[14] “Crítica do Programa de Gotha” em Obras Escolhidas de Marx e Engels II (em alemão), Berlim, 1964, p. 24. Obras Escolhidas (em um volume), Moscou, 1970: p. 327.

[15] Conforme Resultados do processo imediato de Produção (em alemão), Frankfurt, 1969; p. 35.

[16] E. H. Carr – A Revolução Bolchevique (1917-1923) I, Londres, 1964: p. 78.

[17] Obras Escolhidas II (em russo), Moscou, 1982; p. 19, Obras Escolhidas II (em inglês), Moscou, 1975; p. 37.

[18] Obras Escolhidas II (em russo), Moscou, 1982; p. 719, Obras Escolhidas II (em inglês), Moscou, 1975; p. 768.

[19] O. Anweiler – O movimento dos Conselhos na Rússia (1905-1921) (em alemão), Leiden, 1958: p. 195.

[20] “A Ideologia Alemã” em Obras de Marx e Engels III, Berlim, 1973: p. 69.

[21] R. Luxemburgo – “Greve de Massa, Partido e Sindicatos” em Obras Políticas Escolhidas II (em alemão), Frankfurt am Main, 1971, p. 65.

[22] Obras Escolhidas II, p. 325-26; p. 328-29. A primeira ênfase está no texto. A segunda é nossa.

[23] Ibid. p. 345-46, p. 348-49.

[24] Ibid. p. 413; p. 426.

[25] M. Ferro – Dos Conselhos ao Comunismo Burocrático (em francês), Paris, 1980: p. 182.

[26] In Anweiler op. cit. 246.

[27] Trotsky – História da Revolução Russa III, Cap. 10 (na tradução de Max Eastman), Nova York, 1932.

[28] Obras Escolhidas I, p. 421; p. 424.

[29] Ibid. p. 426; p. 428.

[30] M. Heler, A. Nekrish – A Utopia no Poder (tradução francesa do manuscrito russo), Paris, 1982, p. 37.

[31] Obras Escolhidas II, p. 400; p. 401. Essas minutas foram publicadas cinco anos depois.

[32] Ibid. p. 456, 458; p. 457, 459. Em que sentido (marxiano) alguém imagina que se trata de uma “revolução socialista” ou uma “revolução proletária e camponesa” – quando a “esmagadora maioria” da sociedade (ou seja, precisamente o proletariado e o campesinato) não conheciam nem a extensão nem o significado de uma tal revolução.

[33] Ibid. p. 478-79; p. 476-77.

[34] L. Shapiro – A Revolução Russa de 1917, Nova York, 1984; p. 148.

[35] “Revolução Russa” (1918) em Escritos Políticos II (em alemão), Frankfurt am Main, 1968; p. 138.

[36] Obras Escolhidas II, p. 474; p. 473.

[37] Ibid. p. 567; p 563.

[38] Ibid. p. 615; p. 605.

[39] Ibid. p. 596, 620, p. 589, 613.

[40] Obras Escolhidas III, p. 115, p. 182.

[41] “Terrorismo e Comunismo” em Textos (em tradução francesa), Paris, 1984: p. 197, 198.

[42] A Guerra Civil na França (“Primeira Versão”), p. 164-65.

[43] Anweiler – op. cit. p. 279.

[44] Obras Escolhidas II, p. 610; p. 603.

[45] Ibid. p. 630; p. 622.

[46] Ibid. p. 618, p. 611; ênfase do texto.

[47] Ibid. p. 630; p. 622.

[48] L. Shapiro – O Partido Comunista da União Soviética. Nova York, 1960: p. 193.

[49] Heller, Nekrish – op. cit. p. 52.

[50] Lênin – Obras Escolhidas III, p. 526, p. 586.

[51] Ibid. p. 695, 717, 766.

[52] Reproduzido numa tradução em Socialismo ou Barbárie (em francês), 1964, Janeiro-Março.

[53] Em Heller, Nekrish, op. cit. p. 136.

[54] L. Shapiro – As Revoluções Russas, p. 186.

[55] R. V. Daniels – O Outubro Vermelho, Nova York, 1967. p. 224.

Observações do tradutor:
1. O texto foi traduzido a partir da sua versão original em inglês. Nesta versão o autor interpola algumas palavras em outros idiomas. Em alguns casos, o próprio autor as traduz para o inglês, mas mantém ao lado em separado a palavra original em outra língua. Em outros poucos casos, o autor não fez a versão para o inglês, e estando ao nosso alcance fizemos a tradução diretamente para o português. Em ambas as situações, essas interpolações estão assinaladas entre parênteses com a observação N. do T – “Nota do Tradutor”. Com exceção desses pouquíssimos casos, devidamente assinalados com essa observação, todos os demais parênteses e itálicos presentes no texto são originais do autor.
2. As notas ao final do texto com a bibliografia citada pelo autor foram traduzidas diretamente para o português e não foi feita a referência a possíveis traduções das obras citadas que possam estar disponíveis em português.
3. Sobre a tradução das palavras “work” e “labour” – Na maior parte das línguas européias existem duas palavras diferentes para se referir ao conceito de “trabalho” e esse também é o caso do inglês, em que existem as palavras “work” e “labour”. Essas duas palavras, na verdade, designam dois conceitos diferentes, mas essa diferença desaparece no português falado no Brasil e os dois conceitos são indistintamente agrupados com o nome de “trabalho”. No caso do português falado no Brasil a palavra “labor” também existe, mas seu uso é muito restrito, arcaico, regional ou erudito. A predominância quase total da palavra “trabalho” no português brasileiro dá origem a uma ambiguidade que pode ter consequências problemáticas, do ponto de vista de determinadas correntes no interior do marxismo, por isso julgamos oportuno registrar uma observação sobre a nossa opção na tradução desse texto. “Labour” é a palavra que corresponde ao conceito mais genérico de “trabalho”, enquanto que “work” corresponde mais aproximadamente a “obra”. Assim, traduzimos “labouring masses” como “massas trabalhadoras”, e “working class” como “classe operária”. Existe uma decorrência política e estratégica dessa distinção devido ao fato de que, no século XIX, existia ainda uma diferença muito importante entre o “trabalhador” de modo geral e o “operário” em particular. O “trabalhador” incluía também os operários assalariados especificamente industriais, mas estes ainda eram uma minoria num oceano de artesãos independentes, camponeses, servos e escravos. Por isso, era politicamente muito importante a distinção entre a “classe operária” (no sentido de operários industriais assalariados) e “classes trabalhadoras” (no sentido da grande massa da população humana submetida a outros regimes de exploração direta, inclusive formas não-capitalistas, mesmo que, do ponto de vista global, subsumidos à lógica da totalidade mundial do sistema do capital), pois os operários seriam a vanguarda social da revolução socialista. Permanece uma questão de debate em aberto entre os marxistas a discussão entre as teses de que a classe revolucionária é composta apenas pelos “operários industriais”, que atuam na indústria de transformação direta propriamente dita, e a posição de que a condição equivalente àquela de “operário” foi, ao longo do século XX, também estendida para outras categorias de trabalhadores (que na época de Marx ou ainda na de Lênin eram uma vasta massa heterogênea de artesãos independentes, prestadores de serviços autônomos, camponeses, servos e escravos), mediante a subsunção real, e não apenas formal, de suas formas de trabalho.  Em resumo, para respeitar o sentido existente na época histórica tratada no texto, traduzimos “worker” como “operário” e “labourer” como “trabalhador”. A palavra “proletarian”, que também aparece no texto quase com a mesma frequência de “worker”, foi traduzida literalmente como “proletário”.
4. Sobre a tradução da palavra “soviet” – A palavra russa “soviet”, que significa “conselho”, foi difundida universalmente justamente pelo colossal evento histórico que foi a Revolução Russa, e se encontra incorporada na grande maioria das línguas, tendo inclusive seu uso já consagrado também no português falado no Brasil. Entretanto, neste trabalho, fizemos uma opção política, que é preciso registrar, porque desafia esse uso consagrado há quase um século, ao traduzir aqui “soviet” diretamente como “conselho”. Trata-se de uma opção política, destinada a ressaltar com mais ênfase a enormidade do crime cometido pelos bolcheviques ao usurpar o poder dos Conselhos de representantes de operários, soldados e camponeses. Nessa opção não convencional está embutida a aposta de que é de certa forma fácil para o leitor de português não se identificar e não se escandalizar com a supressão de uma coisa chamada “soviet”, uma palavra estrangeira, que de qualquer modo só se tornou conhecida justamente por causa da Revolução Russa, cuja narrativa predominante é indissociável da apologia política do bolchevismo. Apostamos que pode ser mais chocante para o leitor (e precisa ser chocante) se deparar com o fato de que os bolcheviques deram um golpe contra os “Conselhos de operários, soldados e camponeses”, e de que a “República Soviética” deveria ser na verdade uma “República Conselhista”. A aberração de que a burocracia ditatorial, reproduzida pelos bolcheviques em lugar da iniciativa das massas trabalhadoras, possa depois ter sido chamada de “conselhista” (soviética), precisa ser colocada em primeiro plano, por isso optamos por não usar o termo russo “soviet”, mesmo já estando incorporado ao português, e sim a tradução direta para o português como “conselho”.

Traduzido por Daniel Menezes Delfino, segundo a versão disponível em: https://libcom.org/library/did-bolshevik-seizure-power-inaugurate-socialist-revolution-marxian-inquiry-paresh-chatt?fbclid=IwAR3L03czCcHWZpBQnyjMFKOO0Bgvx7wixsr_QG1n2gCZXe_V8zn7Bm8Fbio.

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